Adobe anunciou que deixará de atualizar o programa Flash para celulares e tablets

Na semana passada, a Adobe anunciou que deixará de atualizar o programa Flash para celulares e tablets. Flash é o sistema responsável por boa parte da multimídia na web: vídeos, joguinhos, peças interativas. Demorou a chegar aos smartphones e, quando chegou, não apareceu no iPhone. Steve Jobs se recusou a permitir sua instalação e a briga foi feia. Agora, ele deixará de existir aos poucos para todos os dispositivos móveis. O resultado é que toda a web mudará de vez.

A história desta briga é complicada e caminha simultaneamente por dois campos. Um é emocional, e envolve a história da relação entre Apple e Adobe. A outra é técnica, tem a ver com o jeito que a web funciona e qual seu futuro. Segundo estatísticas da própria Adobe, todo mundo que acessa a internet tem Flash instalado em seu computador. Ou quase todo mundo: 99%. Nos celulares inteligentes e tablets, os números são diferentes. Pouco mais de 60%. Quando o leitor encontra uma página com grandes blocos em branco no celular, provavelmente está ali um pedaço escrito em Flash que ele não consegue ver.

Estes 60% podem parecer muito. Mas isso quer dizer, também, que 40% dos usuários de dispositivos móveis estão vendo uma web com grandes blocos em branco. Não são quaisquer usuários, são aqueles leitores com maior poder de compra e mais atualizados tecnologicamente. Preocupados com isso, os sites mais importantes vêm tirando o Flash de suas páginas principais e se convertendo para uma nova tecnologia, o HTML5. (O próprio GLOBO acaba de fazer essa mudança, na home de seu novo site.)

O Flash nasceu junto com a própria web comercial, em meados dos anos 1990. O HTML, linguagem de programação por trás de cada página, ainda era muito simples: permitia texto, fotos e não muito mais. Flash possibilitava a incrementação disso. Nunca foi, porém, um software muito eficiente. Consome processamento do computador. Faz, literalmente, a máquina pensar muito. E, sempre que a máquina tem de pensar muito, ela engasga e consome mais energia. Flash gerencia mal memória. Ou seja, muitas das vezes que o Explorer ou o Firefox dão pau é porque o Flash foi a pino.

Computadores são máquinas potentes, com muita memória, invariavelmente ligados à tomada. Com smartphones é diferente. Para se conectar à internet e funcionar como bom substituto portátil e miúdo ao PC, precisam ser muito eficientes e estáveis. O celular é também um telefone: não dá para ter, com ele, a mesma tolerância à instabilidade do desktop. Telefone tem que funcionar sempre. Flash no celular consome bateria demais. Gagueja nos quadros de vídeo. E sequer roda em iPhone ou iPad. Agora, a própria Adobe se rendeu.

O argumento de Steve Jobs, em sua briga pública com a Adobe, era técnico. Mas havia outro problema. A Adobe é uma empresa de software que se criou à sombra dos computadores Macintosh, da Apple. Sua suíte de programas, que inclui o InDesign, de diagramação, e o Photoshop, de edição de fotografias, serve a nichos de profissionais que, durante muitos anos, usavam Macs. Foi apenas recentemente, com a melhora do sistema Windows, que eles começaram a se popularizar também no PC. Como a plataforma Windows forma um mercado muito maior, a empresa passou a se dedicar de corpo e alma, postergando updates importantes para o Mac. Começou a tratar a antiga parceira como secundária. Jobs, intempestivo, não gostou. E voltou suas armas contra o Flash nos dispositivos móveis. Morreu sem saber que sua manobra agressiva rendeu frutos.

E renderá mais frutos, pois este é provavelmente o início do fim para o Flash. O dinheiro é curto para todos. Quando um site é desenvolvido, ele tem de funcionar em todas as plataformas. No computador, no celular, no tablet. E conforme mais e mais sites se entreguem ao HTML5, menos e menos gente precisará usar Flash. É uma mudança radical na internet. Por todos esses anos, nossa multimídia rodou nele. E agora está chegando a hora de dizer adeus. Para a Adobe, que era dona de um nicho importante da rede, o impacto dói.

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