Que a tecnologia móvel traz mais produtividade para empresas e profissionais não há dúvida. O problema é que, da maneira como as coisas são feitas, muitas vezes sua implementação só traz mais trabalho.

A culpa não é da tecnologia. É das pessoas. E das leis que não acompanham a evolução tecnológica na mesma velocidade.

Tomemos como exemplo o teletrabalho. Hoje uma série de categorias profissionais pode abdicar de pelo menos um dia da semana no escritório. A disseminação dos computadores, celulares e das conexões de internet possibilitam a execução de tarefas de qualquer lugar. Com o trânsito das grandes cidades cada vez mais caótico, livra-se de 3 a 4 horas por dia dos deslocamentos, convertidos em horas produtivas sem aborrecimentos. Todavia, muitos gerentes só entendem que hora trabalhada é aquela registrada nos velhos livros ou relógios-ponto. A legislação trabalhista também não ajuda, e muitos desses gerentes ficam com receio de liberar funcionários, cobrando resultados ao invés da mera presença.

Para as mulheres, a tecnologia permite melhor conciliação entre trabalho e família. Não é à toa que muitas não levam mais em conta só os valores dos salários na hora de aceitar uma oferta de emprego: flexibilização de horários é essencial.

Contudo, o maior responsável pelas relações de ódio dos trabalhadores pela tecnologia é o celular. Quando a empresa entrega um aparelho móvel para um funcionário, não raro há resistências. Aceitar um telefone da empresa pode significar o fim da vida pessoal, tendo que se sujeitar a ficar 24h por dia à disposição do chefe. É curioso: ao invés de se dispor de um dispositivo para aproveitar melhor as horas longe do escritório — resolvendo questões de trabalho por voz ou email quando se visita um cliente ou fornecedor, por exemplo — ele simplesmente estende as horas de trabalho.

No Ministério do Trabalho corre um imenso número de ações reinvidicando indenização pelo fato dos celulares deixarem os empregados à disposição fora do horário de trabalho, incluindo fins de semana e feriados.

A fim de criar jurisprudência para todos os processos em andamento, recentemente o TST (Tribunal Superior do Trabalho) anunciou, em um pacote de novos entendimentos, que funcionários que possuem celulares dados pelas empresas não dão a eles o direito de receber por horas extras de trabalho.

A súmula do TST entende que “o dispositivo móvel é um aparelho de intercomunicação que, por si só, não caracteriza regime de sobreaviso”.

O fato é que o celular está sendo usado da maneira errada. Jamais deveria sequer ser usado para reinvidicar horas extras. Se tal divergência ocorre, algum tipo de abuso está acontecendo por parte dos empregadores. São poucas as funções que realmente precisam estar sempre à disposição dos empregadores, e nesses casos, o contrato de trabalho já o prevê.

A solução é promover um debate nas empresas sobre o uso correto dos telefones móveis, ampliando e colocando no papel as situações em que tal dispositivo deverá ser usado, para que haja uma concordância mútua formal. O trabalhador deve ter a liberdade de poder desligar seu aparelho, sim!

Do jeito que as coisas andam, mais do que recusar o aparelho da empresa, em breve as pessoas reinvidicarão o retorno dos memorandos de papel e das máquinas de escrever. Cadê aquele trabalho calmo e eficiente que a tecnologia nos prometeu?

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