Windows 8, aplicações imersivas e desenvolvedores apreensivosa

Steve Ballmer, CEO da Microsoft.

“Developers! Developers! Developers!”

É esse o mantra, imortalizado pelo quase caricato CEO da Microsoft, Steve Ballmer, que há anos move a empresa. O mesmo cuidado que os encarregados pelos produtos da casa têm com funcionalidades, interface e outros detalhes dos programas em si se faz presente no ecossistema que se cria em torno deles para desenvolvedores.

Como a App Store do iPhone mostrou ao mundo recentemente e como a Microsoft mostra há décadas, lançar um bom sistema operacional é vencer metade da guerra. A outra está em oferecer aos desenvolvedores terceiros, que farão aplicativos para rodar em cima dos referidos sistemas, ferramentas, APIs e facilidades para obterem êxito em seu intento.

A situação beira o paradoxo do ovo e da galinha, afinal, há desenvolvedores em determinada plataforma porque essa tem muitos usuários, ou determinada plataforma tem muitos usuários porque há desenvolvedores criando para ela?

Às vésperas de um lançamento, de uma plataforma totalmente nova, essa dualidade é deixada de lado. O que seduz os desenvolvedores é uma combinação de boas perspectivas para o sistema e um ambiente amigável para trabalhar. Exemplo recente? O Windows Phone 7. O sistema (ainda) não deslanchou, não vende tanto quanto a Microsoft e parceiras esperavam, mas a base de aplicativos para a plataforma cresce a passos largos. Culpa do Silverlight, base dos aplicativos para WP7, e do amplo leque de ferramentas gratuitas que a Microsoft oferece, atrelado a uma farta documentação e comunidade forte.

Durante a apresentação do Windows 8 na D9, aquela sobre a qual comentamos há duas semanas, junto à tela inicial do sistema foram apresentados o que a Microsoft batizou de “aplicações imersivas”. Em resumo, são aplicativos em tela cheia, com transições fluídas e interface rica.

Em meio ao entusiasmo da plateia, o apresentador disse que aquela e todas as aplicações imersivas do Windows 8 serão feitas com HTML, CSS e JavaScript, linguagens totalmente web.

Silêncio, apreensão… decepção, talvez?

Exemplo de aplicação imersiva no Windows 8.

A bagagem da Microsoft, do Windows para ser mais específico, é enorme. Ao longo das versões, diferentes tecnologias, linguagens e técnicas foram implantadas, oferecidas aos desenvolvedores. A bem da verdade, nenhuma conseguiu se estabelecer, o que talvez revele uma falta de objetividade não na hora de tomar decisões, mas na de abraçá-las e fazê-las durar.

Hoje, muito do que é feito para Windows se baseia em .NET, WPF e Silverlight. Se o que a Microsoft informou na D9 for realmente o que o mundo entendeu, todos os aplicativos, todas as ferramentas, treinamentos etc. serão sumariamente excluídos do front de produção para Windows. Isso dá uma dimensão de como e do quão desenvolvedores Windows estão preocupados.

Mas, por que isso? Por que, justo a Microsoft, está subjugando suas próprias ferramentas e linguagens em prol de padrões web, abertos e mais trabalhosos para desenvolvedores? O Ars Technica, num extenso (e ótimo) artigo, lança uma hipótese interessante: desempenho.

A bem da verdade, WPF e Silverlight nunca tiveram o mesmo desempenho de aplicativos escritos em linguagens de nível mais baixo. Por outro lado, a última versão do Internet Explorer trouxe aceleração via hardware e foi construído em cima da API do Direct2D, que é rápida. Rápida como WPF e Silverlight jamais foram. Estender esse desempenho para o sistema pode, sim, tornar o Windows mais ágil, em troca de deixar para trás todo o legado em desenvolvimento de até então.

E por que apostar em linguagens web em vez de continuar otimizando seu framework próprio? O Cnet complementa o raciocínio com uma palavra: ARM. O Windows 8 será disponibilizado para processadores x86, como sempre foi, e para os da ARM, presença quase unânime em smartphones e tablets. A web é multiplataforma e independe de frameworks, ferramentas próprias para produção e outros detalhes que dariam trabalho para a Microsoft e os próprios desenvolvedores.

Então, em vez de compilar dois programas, um para x86, outro para ARM, com HTML, CSS e JavaScript se mata dois coelhos com uma cajadada só. Não é preciso sequer compilar, basta escrever o código e soltar num servidor — a grosso modo; as APIs do Windows 8 trarão contornos mais delineados para as aplicações imersivas. E com a otimização do motor de renderização, uso de Direct2D e tudo mais, elas serão muito rápidas, tanto quanto quem usa um tablet espera que os aplicativos sejam.

Esse namoro entre web e Microsoft soa quase como irônico. E pensar que a empresa passou a segunda metade da década de 1990 e boa parte dos anos 2000 lutando contra a web (ou, no mínimo, pelo controle dela), que ensaiava tirar do Windows o posto de plataforma dominante…

Ainda haverá mercado para quem cria aplicações comerciais, que rodarão no Windows “clássico”. Quem trabalha com usuário doméstico, por outro lado, terá que repensar muita coisa, talvez até voltar aos estudos para se adequar a essa nova realidade. É uma aposta arriscadíssima a da Microsoft, e o silêncio da empresa ante tantas dúvidas e receio da comunidade só dificulta as coisas. A empresa disse que, sobre desenvolvimento no Windows 8, só falará na BUILD, novo nome da PDC.

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